Terça-feira, 18 de Março de 2008

Nós que aqui estamos por vós esperamos

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

O intestino literário de um líder

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Nova religião?

Será o trabalho a nova religião? Digo isso porque segue o mesmo princípio: você entra e logo lhe chega o açoite da culpa.

O trabalho ou a vida

BN - Acreditava-se que as novas tecnologias libertariam o homem do jugo do trabalho, proporcionando-lhe mais tempo para o ócio e o lazer. Ocorreu o contrário: produz-se mais num tempo menor, e o tempo que resta é investido em mais produtividade, alimentando uma espiral sem fim. Até quando será possível manter esse processo?

Thomaz Wood Jr. - No início dos anos 30 do século passado, René Clair, um cineasta francês, realizou um filme belíssimo: A nous la liberte. Era uma utopia, onde os homens eram liberados do trabalho maquinal pela tecnologia. De lá para cá não apenas destruímos a utopia, como transformamos o lazer em atividade produtiva. Porém, não acredito que sejamos vítimas indefesas. Creio que somos vítimas e algozes. E, mesmo que ainda sejam minoria, alguns já tem a possibilidade de escolha. A tecnologia nos permite ficar conectados 24 horas por dia e 7 dias por semana, com computadores, celulares, fax etc. Podemos usar isso para trabalhar em casa, evitar congestionamentos e ficar mais perto da família, ou podemos usar para nos tornarmos ainda mais escravos do trabalho. Estou aqui escrevendo estas respostas para o Balaio. Poderia estar descansando, dormindo ou brincando com meus filhos. Mas optei por dedicar este tempo a me comunicar com os leitores. São escolhas que temos que fazer, algumas fáceis como esta, outras muito difíceis.

BN - Alguns críticos creditam os males da vida corporativa no Brasil à maneira como seguimos o modelo americano, mais competitivo e mais depredador. Acreditam que seria diferente se tivéssemos seguido uma visão mais européia, mais equilibrada e menos agressiva. A falha no nosso processo pode ser atribuída a modelos?

Thomaz Wood Jr. - Creio que somos uma grande síntese ainda mal resolvida das mais variadas influências. Grande parte do país ainda é Casa Grande & Senzala, onde "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Outra parte continua vivendo na dependência do Estado-pai, que "tudo resolve". Estes brasis continuam em 1700 ou 1800. Apesar de muitas multinacionais norte-americanas estarem presentes no Brasil, ainda somos muito diferentes: não praticamos a meritocracia e somos muito pouco competitivos. Em suma, descordo da visão apresentada na questão. Talvez sejamos depredadores, porém por índole própria. De fato, não é fácil achar no mundo cidades, casas e paisagens tão devastadas quanto as brasileiras. Isso não me parece obra da adoção do "modelo norte-americano". Antes, vem do fato que continuamos sendo um acampamento selvagem. Culpa nossa. Portanto, é hora de crescermos e levarmos um pouquinho mais a sério a vida. Por outro lado, considerando a questão de modelos empresariais, concordo que, de forma muito geral, existe nas empresas européias uma visão mais ampla de seu próprio papel, enquanto as empresas norte-americanas valorizam acentuadamente os resultados financeiros. Outro fato é que as empresas norte-americanas são maiores e mais bem sucedidas que as americanas. São coisas para refletir.

BN - É possível, no Brasil, apostar numa cultura organizacional mais elevada com os níveis salariais que são praticados por aqui? É possível acreditar em motivação em meio a baixos salários?

Thomaz Wood Jr. - A cultura de trabalho vem de valores sociais e da dinâmica da comunidade. Existem trabalhadores muito comprometidos em países asiáticos que ganham salários que são frações dos salários brasileiros. Adicionalmente, não acredito que os salários sejam mantidos baixos apenas para aumentar os "ganhos dos patrões". Isto pode ser verdade em alguns "brasis", mas em muitas empresas que conheço aumentos expressivos de salário levariam à falência ou á redução da capacidade de investimento, o que seria suicídio em médio prazo. Aumento de salário só pode ocorrer se aumentar a produtividade, o que é principalmente uma atividade gerencial.

BN - Alguns críticos acreditam que a globalização acabará por levar a humanidade ao suicídio. As pressões no trabalho em países como Inglaterra e Canadá, por exemplo, têm levado um número crescente de pessoas ao colapso físico e mental. Esses críticos teriam razão?

Thomaz Wood Jr. - A globalização, o aumento da conectividade e dos fluxos de capitais, pessoas, matérias primas, produtos e conhecimento vêm acontecendo há centenas de anos, de forma aproximadamente cíclica. Não é portanto um fato novo. A criação da União Européia, que contém estes mesmos elementos, é geralmente vista como algo positivo, como um sistema ao qual muitos países querem aderir. Isso não tornou os franceses, por exemplo, menos franceses. Aliás, eles até estão trabalhando menos que antes. Creio que a questão não é fazer ou deixar de fazer, mas como fazer, em que ritmo, e em que base de forças. Dois dos países mais populosos do mundo, China e Índia, estão crescendo há taxas de "milagre econômico", e a abertura comercial tem um papel decisivo nisso. Estes países enfrentam desafios imensos em relação a pobreza e qualidade de vida, mas estão evoluindo. Um fenômeno que deve ser analisado a parte é a cultura do management, um conjunto de valores que ficou muito popular nos últimos anos. Estes valores incluem: a supervalorização da dimensão profissional, o culto do sucesso e a idolatria de símbolos corporativos. Estes valores, adotados de forma cega, leva a situações limites de estresse e esgotamento. Agora, existe uma choradeira permanente - e infundada - sobre o excesso de trabalho. Sinto isso nas empresas. Mas tenho dois pontos a contrapor: primeiro, que o trabalho é mal distribuído no Brasil: poucos trabalham muito para sustentar muitos que não trabalham nada, ou quase nada; segundo, que muita gente que trabalha muito apenas "apaga incêndio", não pára para pensar, para planejar, para racionalizar o que faz. Eles (e elas) parecem preferir viver nesta roda vida. Existe também muita gente que não vê sentido na vida além do trabalho. Então, se enterra na profissão.

BN - Para combater a falta de sentido da maior parte das rotinas do trabalho, no mundo contemporâneo, os gurus motivacionais aconselham as pessoas a aprenderem a gostar daquilo que fazem. Essa não seria uma saída muito conformista?

Thomaz Wood Jr. - Como diz o pesquisador alemão Burkhard Sievers: "a motivação é um substituto pobre para a falta de sentido". Fazer um trabalho que não faz sentido é querer enterrar a própria vida. Aos que tem a oportunidade de poder escolher o que fazem (e não são tantos no Brasil), o mínimo que se espera é que não se acomodem, que busquem algo que faça sentido, que os faça se realizarem e os faça realizar algo para os outros.

BN - Afinal de contas, o trabalho salva?

Thomaz Wood Jr. - Não acredito que o trabalho salve. A expressão, aliás, parece levar a uma noção de transcendência religiosa, o que é impróprio. O trabalho pode ser um fardo, algo que fazemos por obrigação. Ou pode ser algo feito com prazer, feito de forma que confiamos no que produzimos, que nos leva a sentir que contribuímos para uma boa causa, em um lugar onde apreciamos a companhia das pessoas e sentimos que estamos nos desenvolvendo. Conseguir tudo isso na vida é simples, mas também não é utopia.

Entrevista na íntegra em Balaio de Notícias

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Missão Itaim







Domingo, 15 de Julho de 2007

missão Paulista





Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Todo mundo vai virar suco

Por Carlos Alberto Dória

Tese examina como a teoria econômica transformou o conhecimento em capital e a pessoa, em empresa

"O capital intelectual é a matéria-prima da qual são feitos os resultados financeiros" (Thomas Stewart)


Ganhar dinheiro na bolsa, converter os lucros no carro do ano, realizar viagens internacionais também todo ano -uma passagem obrigatória por Nova York ou conhecer lugares exóticos do Oriente-, comer ao menos uma vez nos restaurantes dos grandes chefs franceses da nouvelle cuisine, colecionar quadros de artistas emergentes, quiçá ouvir óperas no festival anual de Salzburg. Esta era a parte do ideal da vida dos "colarinhos brancos" que ganhavam dinheiro na década de 70 -os yuppies. Uma escada-rolante ascendente, que levava ao paraíso do consumo, seria a melhor metáfora para descrever sua percepção da vida naqueles anos já distantes do século passado.

Trinta anos depois, o personagem que está na posição daquele yuppie -o executivo de uma empresa transnacional- pinta em novas cores o seu mundo: "A dinâmica hoje do mercado é uma escada rolante que desce. É para a empresa dessa forma, em relação ao mercado, e para a pessoa com relação à empresa. É tudo uma cadeia". Agora, já não é empregado, mas "associado" ou "colaborador" da transnacional. "Terceirizado", como dizemos caboclamente. Tem lá o contrato entre a sua "pessoa jurídica" e a transnacional, mas o vínculo é tênue.

O executivo também fala sobre a própria família como uma mini- "empresa" e conclui, diante do risco permanente em que vive: "Eu assumo responsabilidades aqui, mas não consigo demitir minha mulher, demitir meu filho, e do outro lado o que a sociedade me oferece, o quê?"1. Já se tornou normal -na publicidade sobre um curso ou uma palestra que pode ser sobre vinhos, filosofia antiga ou "buraco negro" e outras maravilhas da física- aparecer no lugar tradicional do preço ou custo, uma nova palavra: "investimento".

Tenhamos presente que aquele executivo costuma fazer este tipo de curso. Mas estávamos acostumados a associar "investimento" ao capital, não ao consumo. Ninguém "investe" numa barra de chocolate, numa geladeira, num carro ou numa viagem ao deserto de Atacama. Mas consumir qualquer coisa considerada "cultura" ou "conhecimento" significa, hoje, fazer um "investimento". Assim como conhecer as pessoas certas e os lugares certos.

Se o indivíduo se considera uma "empresa", como se fosse uma unidade de capital, trata-se de um investimento em si próprio. Finalmente surgiu o "você S/A". Fomos mesmo convertidos em unidades de capital, a julgar pela tese de doutorado que o sociólogo argentino Osvaldo Javier López-Ruiz acaba de defender, em que mostra o novo modo como os executivos se inserem no mundo do trabalho e como transformam as suas próprias vidas a partir dessa novidade.

Segundo ele, tudo começou no já distante ano de 1960, quando o economista Theodore Schultz, da Universidade de Chicago, escreveu um pequeno artigo, intitulado "Investimento em Capital Humano", que produziu uma grande polêmica entre economistas. Quarenta anos depois, as idéias de Schultz acabaram se espraiando por toda a sociedade e resumem o que se pensa modernamente sobre o papel do trabalho no capitalismo ultramoderno.

O que Schultz queria entender era o porquê de sociedades afluentes, como os Estados Unidos, terem crescido muito além dos índices que normalmente expressam o crescimento (investimentos, dispêndios em salários etc.). Ele chegou à conclusão de que "os modelos de crescimento econômico que tratam as alterações na força de trabalho contando o número de operários", as estruturas físicas, os equipamentos, as mercadorias, já não explicavam o essencial. É fundamental, dizia, considerar a heterogeneidade do trabalho, não mais tomado como uma "força" uniforme.

Schultz destruiu a noção clássica de "força de trabalho" e colocou em seu lugar as habilidades inatas ou adquiridas -habilidades que não contribuíam da mesma maneira para a "riqueza da nação". Desapareceu, assim, a categoria "recursos humanos" das empresas.

O que parecia uma conversa enfadonha entre economistas era, na verdade, uma revolução na economia política desde os seus fundadores: o capital deixava de ser visto como homogêneo, e o trabalho, que era a categoria oposta, passava a ser considerado capital ou, mais precisamente, "capital humano", que se materializa quando o capital "pega esse talento e consegue botá-lo na corporação"2 .

A revolução conceitual do "capital humano" demorou décadas para conquistar o mundo dos negócios, até que as teorias de administração, as empresas de consultoria, as revistas técnicas e tudo o que possa "fazer a cabeça" dos executivos se curvassem diante dela. Agora que ela se vulgarizou, a nova teoria faz com que os indivíduos se comportem como "capitalistas de si próprios" e, portanto, o consumo que signifique qualificação, diferenciação, sofisticação cultural, será considerado "investimento". É um novo modo de se ver e de ser visto pelo mercado. A "mudança" permanente, o aperfeiçoamento pessoal, o elogio dessa atitude, virou o mantra do nosso tempo, conforme López-Ruiz. Em outras palavras, "você é o seu projeto".

Mas não se trata apenas de uma mudança subjetiva. Este novo "ethos", no qual o antigo trabalhador passa a se comportar como um átomo de "capital humano", fundamenta uma nova cultura empresarial, uma nova forma de exploração do trabalho.

O primeiro grande passo foi a eliminação do "emprego". Os antigos executivos foram transformados em "sócios" das grandes corporações. Como diz um capitalista, "os acionistas investem dinheiro em nossas empresas, os empregados investem tempo, energia e inteligência"3. Junto com as participações nos ganhos do capital, foram socializados também os riscos da atividade capitalista. Eles já não ganham "altos salários", mas parcelas do lucro quando este resulta da sua atividade. Às vezes -como nos Estados Unidos, no escândalo do caso Eron ou, na Itália, no caso Parmalat- falsificam lucros para ganhar mais.

Entre os que trilham o trabalho honesto, vê-se uma corrida frenética para se qualificar sempre mais e mais. O que antes era acesso à educação se transformou em "capacitação" para o trabalho ultracompetitivo do dia-a-dia. A própria vida privada é administrada como se fosse uma "empresa" que se integra à corporação na busca do lucro. Ir a um concerto, conhecer novas pessoas, saber discorrer sobre vinhos -tudo faz parte do bom desempenho dessa "empresa" nova, que só é competitiva se apresenta uma alta dose de "capital humano", isto é, conhecimentos e habilidades de "ganhadores".

Um dia, tudo isso acaba. Jovens mais "competitivos" aparecem por todos os poros do mercado para deslocar os mais velhos. Mas o que se segue não é o "desemprego", pois já não havia o "emprego". É apenas uma sociedade entre capitais que se desfaz. E, aí, mediante uma série de tentativas e erros, o trabalhador das corporações busca inaugurar a sua "segunda carreira".

A metáfora desta "segunda carreira" é o famoso caso do início dos anos 80 do século passado, quando um engenheiro desempregado abriu uma lanchonete na avenida Paulista, em São Paulo, e a batizou com a frase que resumia a sua vida: "O engenheiro que virou suco", definindo assim um personagem que foi explorado pelo filme "O homem que virou suco", de João Batista de Andrade. Mas, antes de "virar suco" o trabalhador tentará virar consultor, escrever livros, enfim, fazer "render" aquelas suas velhas habilidades que o mercado acabou de lhe dizer que já não valem nada. Como "terceirizado", tem uma empresa que é contratada para serviços específicos. É remunerado pelo "tempo total" trabalhado e só por ele, sem qualquer um dos velhos custos trabalhistas (previdência, seguro saúde, vale-refeição etc.).

O estudo de Osvaldo Javier López-Ruiz não nos diz quantos viraram ou virarão suco, mas sim como se vira suco. É um estudo qualitativo. E mostra que o executivo não vira suco no espremedor de laranjas do designer Philippe Starck que ele geralmente tem na sua cozinha muito bem equipada. A coisa é bem mais cruel, como na imagem da escada rolante que desce, e o sujeito que, em sentido contrário, se esforça para não sair do lugar.

A metáfora revela uma classe média que, antes, fazia a sua poupança e se educava para garantir a ascensão social, mas que hoje transformou a "poupança" em consumo ("investimento em si"), que reduziu a educação à capacitação para competir e que, no lugar da mobilidade social ascendente, luta para não decair4. Na medida em que esse segmento é "formador de opinião", esse modo de pensar passa a ser o "ethos" de toda a sociedade. Mondo cane, mondovino, mundo cruel, é tudo uma coisa só.

Um mundo onde o produto é a pessoa e o mercado, a vida, onde o curriculum vitae não é mais uma história, mas uma peça de marketing que resume as habilidades utilizáveis ("Você tem um produto para vender, e esse produto é você mesmo", diz um dos entrevistados por López-Ruiz).

E o autor mostra que o novo "ethos" não se limita a mais uma "teoria da administração" -como tantas outras que se sucedem entre executivos, definindo o perfil do "executivão" de multinacionais, fundamentando a "reengenharia" dos processos de trabalho, a "desintermediação" ou outras panacéias da administração do capital. Ao contrário, com o fim do emprego, a dissolução do operariado, o fim do "chão de fábrica", a própria categoria trabalho, como valor que o capital suga em troca de um "salário", desapareceu.

O desaparecimento do trabalho enquanto tempo, ou força e energia aplicadas numa atividade seriada, governada por máquinas, equipamentos e rotinas, converteu o trabalhador numa parcela do próprio capital que se acumula em novos conhecimentos e capacidades. Esta é a base objetiva para que se desenvolvam novas formas de relações sociais, resumidas no "ethos do executivo das transnacionais".

Se o "trabalhador" era antes o fruto de uma série de lutas históricas, uma categoria concreta da sociedade que resumia um feixe de direitos garantidos pelo Estado e vigiados pelos sindicatos, agora já não é mais esta coisa jurídica, resumindo-se à atividade no mercado. O indivíduo é o empreendedor de si mesmo, o seu próprio capital, e não alguém que realizava uma troca de tempo de trabalho por salário numa condição jurídica "trabalhista". Suas ações passam a ser pensadas isoladamente em termos de custo/benefício, isto é, segundo a sua racionalidade interna, e não mais como um processo que se desdobra no tempo.

O seu salário, que antes era o preço da sua força de trabalho obtido pelo enfrentamento entre trabalhadores assemelhados, agora assume a forma de uma "renda", rendimento do seu "capital humano". Ao agir como uma "empresa", o trabalhador passa a ser o encapsulamento da subjetividade do capital. Sua "alma" é a alma do capital. Ele levou a si próprio para o coração da empresa ou, nas palavras de um executivo, "os acionistas põem a grana ; eu ponho miolos", e toda a sua subjetividade será moldada a partir do novo enquadramento.

Novas categorias de análise deste admirável mundo vão povoando os textos de economistas e executivos de organismos multilaterais, como o Banco Mundial e a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Em suas mãos, o "capital humano" de Schultz vai se refinando e se convertendo em "capital intelectual" (o ativo da empresa, a maior parte do seu valor real), ou "capital social" e, ainda, "capital territorial" -diferenças sutis que têm em comum o fato de transformar algo intangível em fator de acumulação, seja a sua unidade uma pessoa, uma cultura ou um conjunto de recursos institucionais referidos a um território.

Nessas suas metamorfoses se descortina uma sociedade onde o capital pode se apropriar de todos os conhecimentos como forma de valorizar a si próprio, deixando claro que ele é uma relação social, não coisas palpáveis. Em outras palavras, agora a ciência, a técnica e a "cultura" são tomadas como forças produtivas, e este conhecimento útil em nova embalagem se revela quando é possível conectar pessoas, alavancando o que elas sabem para gerar ganhos no mercado.

Com base nessa nova realidade de mercado dá-se o espetáculo de crescimento econômico, de costas para o Estado e para o espaço público, cujos desdobramentos muita gente, dentro e fora das academias, quebra a cabeça para entender -como nesse trabalho iluminado de Osvaldo Javier López-Ruiz.

Por enquanto, apenas uma certeza: no médio prazo todos viraremos suco.

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo e ensaísta, autor, entre outros livros, de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e o recém-lançado "Os Federais da Cultura" (ed. Biruta).

1 - Osvaldo Javier López-Ruiz, "O ethos dos executivos das transnacionais e o espírito do capitalismo", tese de doutorado, IFCH-Unicamp, 2004, pág. 300.

2 - Palavras do dirigente de uma transnacional, conforme Osvaldo Javier López-Ruiz, op. cit., pág. 305.

3 - Cf. Osvaldo Javier López-Ruiz, op. cit., pág. 244.

4 - A literatura sobre o desaparecimento da classe média já começa a ser notável. Ver sua resenha no artigo de Robert Kurtz, "O Declínio da Classe Média", "Folha de S. Paulo", 19/09/2004.